20 maio 2018

Noura Erakat, advogada de Direitos Humanos, sobre o massacre em Gaza e o problema de Israel

Os melhores nove minutos desta semana (e estou a incluir a homilia do casamento de Harry e Megan).




19 maio 2018

hoje acordei salomónica (2)

A ideia despachada e simples que tive há dias (contei aqui) de deixar que uma das partes divida o antigo território palestiniano em dois lotes, e a outra parte escolha com qual dos lotes quer ficar parece uma solução muito justa para resolver o problema de Israel e dos palestinianos mas - obviamente - não é possível. Como é que os israelitas conseguiriam abrir mão do tanto que lá construíram, como poderiam ser obrigados a escolher entre Telavive e Haifa, por exemplo? Impensável. Setenta anos depois, tudo mudou. Não se pode obrigar os israelitas a deixar as suas casas, as suas aldeias, as suas cidades, as suas empresas, as suas escolas, a sua geografia. Impossível. É exigir demasiado. 

Mas foi isso mesmo que fizeram aos palestinianos em 1947. O mapa da ONU deu mais de metade da Palestina aos judeus, o que acabou por forçar os palestinianos a deixar as suas casas, as suas aldeias, as suas cidades, os seus olivais, os seus limoais, a sua geografia.

O que seria impensável impor hoje aos israelitas, foi há 70 anos imposto aos palestinianos. E como eles não quiseram aceitar, deram-lhes o nome de terroristas. A somar a todas as outras abjecções de que os palestinianos foram vítimas: o inacreditável cinismo da campanha de relações públicas conduzida por Israel e os seus aliados.

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Há centenas de milhares de famílias que podem contar histórias como esta que Elias Chacour, um palestiniano cristão e árabe, conta no seu livro Blood Brothers. Muito resumidamente: em 1947, os anciãos da sua aldeia de maioria cristã, Biram, recomendaram a todos que abrissem as portas para acolher os judeus sobreviventes do Holocausto. Esta generosidade foi aproveitada pelos hóspedes para instalar nas casas deles os soldados que haviam de os expulsar da sua própria aldeia. Um dia, o comandante do grupo, manhoso, avisou a população da aldeia de que corria sérios riscos. Os seus soldados iam protegê-los, mas era conveniente que saíssem da aldeia por alguns dias, até passar o perigo. Sem nada para além da roupa que traziam no corpo, a família de Elias Chacour abrigou-se num olival, e esperou. Alguns dias mais tarde, estranhando a falta de sinais do comandante israelita, um grupo desceu à aldeia - e viu as casas saqueadas, os objectos domésticos espalhados pelas ruas, esmagados. Os soldados apontaram-lhes as armas, e proibiram-nos de voltar àquele lugar. A família de Elias Chacour conseguiu encontrar abrigo numa aldeia vizinha, também de cristãos. Alguns dias depois, soldados israelitas entraram nesse refúgio e mandaram juntar todos os homens na praça central, acusando-os de serem rebeldes, terroristas palestinianos, e exigindo que lhes dessem as suas armas. Como ninguém tinha armas para entregar, foram obrigados a ficar de pé à torreira do sol a tarde inteira, sem água, sem nada. Ao anoitecer deixaram finalmente que os homens regressassem a casa. O pai e os irmãos do pequeno Elias estavam exaustos. Ninguém ousou acender luzes na casa, ou cozinhar o jantar. Permaneceram no escuro, aterrorizados. O pai ficou alguns momentos com cada um deles, em silêncio. Elias pressentiu que estava a rezar por eles. Um pouco mais tarde, um barulho ensurdecedor espalhou-se pelas ruas desertas. Os soldados estavam de volta, e usavam megafones para ordenar que todos os homens saíssem das suas casas. A mãe despediu-se do marido e dos três filhos mais velhos, que foram metidos em camiões. Na aldeia ficaram as mulheres com os bebés e os filhos mais pequenos. Quando os camiões arrancaram, o megafone anunciou: "Estamos a levar os vossos terroristas. É isto que acontece a todos os terroristas. Nunca mais os voltarão a ver."
Os camiões levaram-nos até à Síria, e largaram-nos nesse país. Durante três meses, os homens caminharam de regresso a casa. Mal recebidos pelos outros árabes que encontraram no caminho, passaram fome e sede. Quando chegaram a casa vinham esqueléticos e andrajosos. Mas estavam vivos, e de novo com a família.
Uns anos depois, em Dezembro de 1951, a antiga população de Biram conseguiu que um tribunal reconhecesse o direito de  voltarem às suas casas. Os anciãos voltaram à aldeia para mostrar a ordem do tribunal ao comandante dos soldados que a ocupavam. O comandante pediu-lhes alguns dias, para preparar a retirada. Disse-lhes que voltassem no dia 25. O melhor presente de Natal!, pensaram eles. Na madrugada desse dia puseram-se a caminho. Regressavam a casa após vários anos de sofrimento e exílio. Atravessaram olivais e montes cantando hinos festivos de Natal, tomados de enorme alegria. Quando avistaram a aldeia, pararam em silêncio. Estava rodeada por soldados e veículos militares. Um dos soldados alertou os outros para a chegada do grupo, e no momento seguinte toda a maquinaria de guerra foi posta em acção para destruir a aldeia. Tinham marcado o dia de Natal para fazer vir os cristãos ver com os próprios olhos como a sua aldeia era reduzida a pó.
Biram já não existe. Nem o nome se pode dizer.
Anos mais tarde, Elias foi para Paris estudar teologia. No seminário todos eram muito simpáticos com ele, mas evitavam falar do que se passava na Palestina. Até à noite em que Elias contou o que se passara na sua aldeia, e um dos estudantes lhe respondeu que era preciso dizer as coisas como elas são, e que os israelitas se tinham visto obrigados a proteger-se dos terroristas palestinianos. Elias tentou argumentar: dez anos antes, não havia ainda fedayeen. Os palestinianos da sua aldeia não eram terroristas, eram vítimas do terror. Os judeus eram bem-vindos na Palestina, mas não podiam trazer os soldados que expulsavam os palestinianos das suas próprias casas e terras. E rematou: "vocês conhecem-me! não sou terrorista! quero trazer a paz ao meu povo, quero a reconciliação entre palestinianos e judeus!"
Um dos franceses estudantes de teologia respondeu: "Isso é porque vocês são palestinianos bons."
Foi nesse momento que Elias Chacour se deu conta da imensidão da tragédia: dez anos depois de terem sido despojados da sua terra, o mundo olhava para os palestinianos como sendo gente ignorante, hostil e violenta. Proscritos.


revista Hola cruza-se com revista Emma (2)

Mais uma ideia genial que escrevo a correr, antes de ter tempo de pensar duas vezes: se não é a mãe da Meghan Markle que entra com ela na igreja, se tem mesmo de ser um homem, então...

OBAMA!

Imaginem a cena: o Obama a levar esta cidadã americana para o seio da família real inglesa.

(Nem sei porque é que o protocolo da Casa Real não me dá uma avença de conselheira. Era o que deviam fazer, se estivessem a precisar de um autêntico Trump do protocolo...)

18 maio 2018

revista Hola cruza-se com revista Emma



Se me permitem um intervalo na programação para um momento de futilidade...

No que diz respeito ao casamento real que amanhã se realiza, a pergunta mais importante dos últimos dias era esta: depois das trapalhadas que o pai da Meghan Markle arranjou, que o inviabilizaram para levar a filha ao altar onde Harry a espera, e depois da carta odiosa que o irmão dela escreveu, avisando Harry que estava a cometer um erro mas que ainda estava a tempo de cancelar tudo (caramba, quem tem uma família assim...), pelo braço de quem é que Meghan iria entrar na igreja?

Se me deixassem mandar, ia pelo braço da mãe. É o que faz mais sentido: a mulher que a criou, e com quem ela se dá tão bem. Porque não?

Porque é que se faz questão de manter o hábito de a mulher ser entregue ao noivo pelo pai, ou pelo irmão, ou pelo tio, ou pelo primo - enfim, por um homem da sua família?
Já podíamos começar a deixar para trás simbolismos serôdios.

Só que ainda não vai ser amanhã. Meghan Markle vai entrar na igreja pelo braço do futuro sogro, o príncipe Carlos.
É simpático da parte dele, e é um sinal da coesão da "Firma". Mas perdeu-se um bela fotografia para as revistas feministas (como a Emma alemã) e a causa do feminismo.


se isto é a Europa


Aconteceu aqui, no coração da União Europeia: vários carros da polícia perseguem um pequeno autocarro com trinta refugiados curdos, entre os quais há quatro crianças, e disparam contra ele. As notícias que li não são claras. Uns falam de tiroteio (que entendo como "troca de tiros", mas já vi usar muitas vezes para casos em que só um dos lados está armado), outros dizem que a polícia disparou durante a perseguição, outros dizem que os tiros só começaram depois de o veículo estar imobilizado. No veículo há uma menina de dois anos morta, ou moribunda. A criança não terá sido atingida pelas balas, e espera-se agora o resultado da autópsia para saber a causa da sua morte.

Disparar contra um veículo cheio de refugiados?! São estes os famosos valores humanitários europeus, valores identitários dos quais tanto nos orgulhamos e que tão bem nos distinguem dos outros?


hoje acordei salomónica

(escrevo muito depressa, antes de pensar duas vezes, para não correr o risco de ter de desistir desta ideia brilhante antes ainda de a escrever)

Dado que a situação actual entre Israel e os palestinianos é um beco sem saída cada vez mais comprido, e dado que ambas as partes estão bem conscientes disso, proponho que se faça partilhas de lotes como nas heranças ou como nos acordos de escavações arqueológicas: os israelitas dividem a região em duas áreas de valor igual, dividem Jerusalém também em duas partes, e os palestinianos escolhem desses lotes aqueles em que querem fazer o seu país e a sua capital. Ou ao contrário: os palestinianos dividem e os israelitas escolhem.

E depois fazem dois países independentes, com capacetes azuis a substituir as forças armadas de uns e outros, e forças policiais reforçadas por equipas internacionais para impedir pogroms contra as minorias estrangeiras.

(agora volto para a cama, para continuar a sonhar)


17 maio 2018

"fato" (3)


[um post de Elisa Costa Pinto na Enciclopédia Ilustrada]



Quando um #FATO vale mais do que 1000 palavras.
ou
Quando a ausência é a maior presença.

(Fotógrafo dsconhecido, Irão, provavelmente, depois da 1.ª Guerra Mundial).



Fox News

O Fox já não mora aqui. Vive com o Matthias e mais dois simpáticos rapazes num apartamento no centro da cidade.

Os dias têm estado lindos, mas sem o Fox acabo por não sair de casa para os gozar. Quando o Fox morava aqui eu tinha menos tempo, mas mais qualidade de vida.

Recentemente veio cá passar uns dias, e deu para ver que esta já não é a sua casa. Por saber que ele se sente feliz lá na sua nova casa, convivo melhor com o vazio enorme que aqui se fez.

E depois... we will always have instagram.:)

 


(Nesta última, gosta especialmente da cara dele a olhar para o fotógrafo com ar de "vai tu buscar aquela bola, que eu não me quero molhar")


eu sou uma alface do Lidl!



"eu sou uma alface do Lidl" - isto tem tudo para se tornar uma frase idiomática em Portugal

(frases idiomáticas portuguesas com palavras alemãs, enfim...)
(e só mais um pequeno apontamento: nos Lidl da Alemanha os produtos estão muito mais empacotados; com tão pouco plástico, o supermercado deste filme é mesmo muito à frente!)

16 maio 2018

"fato" (2)


Tenho ouvido muita gente a rir do #fato da Angela Merkel.
O meu sogro dizia, com um sorriso, que o único factor surpresa era tentar adivinhar se o casaco desse dia tinha 2 ou 3 botões. Outras pessoas dizem coisas bem mais desagradáveis, que geralmente se prendem com o hábito de humilhar e escravizar uma mulher pela sua aparência.
Pessoalmente, gosto. Não propriamente dos fatos em si, mas do facto de Angela Merkel ter criado uma indumentária de trabalho equivalente ao fato e gravata dos homens. Se não interessa para nada a roupa que um governante usa*, porque é que isso devia ser um tema para as governantes**?
Sempre me intrigou ver mulheres a competir no campo tradicional dos homens impondo-se a si próprias dificuldades suplementares: não apenas têm de ser muito melhores que os concorrentes homens para terem remotas possibilidades de serem consideradas aptas para o cargo, mas também têm de andar impecavelmente penteadas e pintadas, dentro de roupa desconfortável e em cima de saltos vertiginosos e pontas agudas.
De certo modo, este uniforme da Angela Merkel é um contributo para a luta feminista, porque liberta as mulheres da dupla obrigação de "sofrer para bela ser".

(*) Não interessa para nada a roupa que um governante usa - excepto quando é o Varoufakis e um caríssimo cachecol Burberry

(**) A governante ou a governanta? Quando se criticou a Dilma por se chamar "presidenta", disse-se que era um erro gramatical. Sendo assim, "governanta" não devia existir. Em que momento se decidiu dar esse nome às mulheres que governam um espaço doméstico, e por que motivo acharam por bem atropelar a gramática nesse caso?


"fato"

[A palavra do dia na Enciclopédia Ilustrada]

A minha mãe era filha de um alfaiate. Em miúda, quando passava férias na casa desses avós, os meus dias tinham a música do seu trabalho: o zum-zum da correia na roda do pedal da Singer, o tac-tac-tac-tac da agulha na fazenda, as conversas solenes com os clientes que vinham encomendar um #fato, o correio que passava a meio da tarde para deixar o "Comércio do Porto", a voz da minha avó a ler para o marido as notícias já velhas de dois dias. E o pedido "ó Rosa, faz-me uma fogueira que eu hoje vou ter de passar a ferro".
(Não é que eu seja assim tão velha, Portugal é que era um país muito arcaico na altura em que eu nasci. Na minha casa havia um ferro eléctrico; na do meu avô materno um ferro de brasas; a minha avó paterna esticava muito os lençóis e guardava-os na arca com a outra roupa por cima, para ficarem bem prensados; e numa casa onde fiz férias aos nove anos usavam ferros aquecidos à boca do forno a lenha para passar a roupa sobre uma enorme mesa de pedra. Foi no verão do Watergate, e perto de Cabeceiras de Basto, numa aldeia sem electricidade, ainda passavam a roupa assim.)
Todo aquele trabalho de fazer fatos de homem me fascinava: os fregueses que vinham com um retalho de fazenda muito bem dobrado, ou então com o fato velho do pai para fazer um novo ao filho, o processo moroso de tirar as medidas e anotar num caderninho segundo uma sequência sempre igual que dispensava títulos, o momento grave de cortar o pano, o zum-zum tac-tac-tac-tac de coser as peças. E depois a prova, "hum hum, tenho de apertar mais aqui". A minha avó parava a leitura em voz alta do jornal e ia abrir as costuras, enquanto o meu avô ia adiantando as presilhas. Depois ele cosia de novo as peças de pano, e ela dedicava-se ao ingrato trabalho de virar as malditas presilhas.
Na data aprazada os fregueses vinham, vestiam, ficavam satisfeitos. O dinheiro - uma enormidade de dinheiro - passava das mãos calejadas e sofridas de uns para as mãos, também calejadas, sofridas, por vezes queimadas, do meu avô. O fato novo era embrulhado em papel e saía da casa - um embrulho precioso.
Era no tempo em que se chamava artista a quem tinha tanto saber nas mãos.
E era no tempo em que as pessoas compravam muito menos, muito mais duradouro, e com muito mais sacrifício.

15 maio 2018

na terra de David e Golias



Lutam com pedras contra um exército que tem a bomba atómica. Lutam por uma vida digna na terra dos seus avós, pelos seus mais básicos direitos, pelo direito de regresso daqueles que foram forçados ao exílio.

Mas, desta vez, chamam "terrorista" ao rapaz que luta com pedras e funda contra os gigantes. 


14 maio 2018

70 anos de Israel

Nada como o humor judaico para condensar em meia dúzia de frases o que há de mais trágico e desesperado numa situação. Como esta anedota, muito a propósito da fundação de Israel que hoje perfaz 70 tremendos anos:

Em Maio de 1948 um navio cheio de sobreviventes do Holocausto dirigia-se a Israel. Quando avistaram a costa, todos desataram aos vivas. Todos, excepto um dos passageiros, que desatou a chorar e a lamentar-se. Os outros, intrigados, perguntaram-lhe:
- Porque é que choras e te lamentas num momento de tão grande alegria?
- Ora, se era para os ingleses nos darem uma terra que não era deles, preferia que nos tivessem dado a Suíça...


13 maio 2018

trocar as voltas à insularidade


Hoje foi dia de trocar as voltas à minha insularidade: Portugal na Filarmonia!
Um solista português, o tenor Paulo Ferreira, a cantar o Requiem de Verdi. E eu ali, no bloco B, a ouvir encantada o tenor cuja voz enchia com força e beleza a sala enorme. Um momento inesquecível! 

No fim do concerto fiz as contas a esta minha vida: à parte alguns bolseiros portugueses da Orchestra Academy (que agora se chama Karajan Academy), portugueses naquele palco ainda só tinha visto a pianista Maria João Pires e o maestro Cesário Costa. E agora o Paulo Ferreira.
Que venham mais! Para nos dar a alegria de ver aqui reconhecido o valor dos nossos compatriotas.

E para que ninguém se queixe de eu andar a açambarcar tudo o que é bom, Paulo Ferreira e Filarmonia ao mesmo tempo, uma boa notícia: o Paulo Ferreira vai cantar este requiem em Lisboa em Novembro. Estejam atentos.

(Pela minha parte, agora já só falta mesmo trocarem as bretzeln por pastéis de nata nos bares da Filarmonia de Berlim. Aí é que deixava mesmo de poder fazer o choradinho da insularidade! ;) )


12 maio 2018

o que eles dizem

Para a quem interessar possa, e para minha memória futura, copio para este post (que será longuíssimo) algumas das reacções suscitadas pela crónica "A tragédia de Sócrates", de Fernanda Câncio, e pelo burburinho que se lhe seguiu.


1. Daniel Oliveira, Expresso: As primeiras vítimas de um mitómano estão ao seu lado

(...) Muitos não se lembram, mas supostamente Sócrates tinha fortuna de família. E era assim que explicava a amigos, próximos e conhecidos o nível de vida que mantinha. E é a partir dessa mentira que Sócrates, um homem que não é apenas desonesto mas parece sofrer de um desequilíbrio de personalidade, consegue, pelo menos até se saber parte da verdade, a solidariedade de muitos dos que lhe estavam próximos, não hesitando em colocá-los numa situação de enorme fragilidade futura.
(...) Mas a diferença entre o cúmplice e a vítima é muitas vezes a boa-fé da sua conduta. E muitos amigos e camaradas de Sócrates, pelo menos os que são feitos de uma massa muito diferente da sua, foram as vítimas mais próximas da sua mitomania amoral. Aos poucos que, no PS, querem manter o partido amarrado a esta figura fica um conselho: leiam o texto de Fernanda Câncio. Acabou.
(o texto completo está no fim deste post)



2. Helena Ferro de Gouveia - facebook

“A Câncio”
Disclaimer: não sou amiga da Fernanda, não a conheço pessoalmente, conversamos algumas vezes por mensagem, discordamos muitas vezes. Admiro muitas das suas reportagens, a coragem e a frontalidade com que abordou temas como o assédio sexual. Nunca votei PS. Desprezo José Sócrates e tudo o que ele representa.
1. Passemos à crónica no DN. Antes de mais:
- quantas pessoas foram já enganadas durante anos por amigo/a, namorado/a, marido (há mentirosos compulsivos que ao acreditarem de tal forma no que dizem se te tornam absolutamente convincentes)? Será a Fernanda a primeira ? Não o é certamente.
- viajou a expensas do namorado (que espalhou a lenda da fortuna pessoal) e isso faz dela o quê? Se a sua namorada/ namorado tem (supostamente) mais possibilidades económicas que você e lhe oferece um jantar ou uns dias de férias recusa ? Denuncia-a/o as Finanças ? Uma feminista não se pode apaixonar e deixar de atentar aos sinais ?

11 maio 2018

o que tu queres sei eu

Quando Marcelo Caetano assumiu o poder, em 1968, o pai de uma amiga minha perguntou-lhe se ia fazer alguma coisa contra a corrupção e os interesses instalados no aparelho do Estado. Ele respondeu que não era louco.

Cinquenta anos mais tarde, Portugal continua a debater-se com problemas graves da corrupção (no texto "A ponta do iceberg", Luís Aguiar-Conraria dá alguns exemplos) que cresce e ganha força ao abrigo de uma estranha bruma onde todas as pistas se perdem (o caso dos submarinos é exemplar: a contraparte alemã já foi descoberta, julgada, condenada, e já cumpriu a pena; por seu lado, a contraparte portuguesa hã? o que foi? havia alguma coisa? "nãããã, deve ser boato para atacar o nosso partido, que o que eles querem sei eu!").

Vivemos, assim, num clima de suspeição sobre tudo e todos que permite largar insinuações  indiscriminadamente, sem haver nunca certezas nem conclusões quer sobre a culpa quer sobre a inocência. Será da ordem natural das coisas, ou será estratégia? É justamente este clima de suspeitas generalizadas sem provas - muitas vezes, sem haver sequer indícios - que permite por um lado desvalorizar a informação disponível, a pretexto de ser manobra dos outros para desacreditar os nossos, e por outro lado desculpar o comportamento menos ético de uns porque, "como é do conhecimento geral, todos fazem o mesmo, e muito pior".
Em suma: um clima de suspeição que envenena as relações sociais e a confiança no sistema político e no Estado de Direito, e destrói qualquer possibilidade de apelar à ética nas escolhas pessoais que afectam a coisa comum.

Recentemente, a acusação de Manuel Pinho ter recebido avenças do GES enquanto era ministro acabou por trazer de novo à baila a questão Sócrates. O PS mudou de discurso, demarcando-se de Sócrates com mais clareza: do "à justiça o que é da justiça e à política o que é da política" passou-se ao "caso a justiça confirme, é uma vergonha para a política". 

É neste contexto que aparece um texto de Fernanda Câncio, "A tragédia de Sócrates", que leva o debate para o plano da ética. Diz algo tão simples como isto: independentemente do que o sistema de justiça venha a apurar, o que já todos sabemos sobre o modo como Sócrates mentiu é de tal ordem que é imperioso que o PS se demarque dele.

Parece a história do ovo de Colombo - simples e óbvio, mas não ocorreu antes a mais ninguém. Ou, pelo menos, não vi mais ninguém escrever antes dela com esta clareza.

A questão que se impõe de seguida é perguntar se é só o Sócrates, ou se a mesma exigência se deve aplicar a todos os políticos: quem tiver comportamento eticamente reprovável, mesmo que não seja comprovadamente ilegal, deve passar a persona non grata no seu partido? E como definir as fronteiras e as exigências éticas acautelando o risco de se abrir uma época de caça selvagem aos políticos?

Perante questões tão incómodas quanto importantes e urgentes, que podem dar origem a uma mudança de paradigma na política portuguesa, o que faz Portugal? Prefere virar-se contra a Fernanda Câncio numa polifonia de "ah, sua rameira, o que tu queres sei eu".
Ah, heróis do mar, nobre povo, nação valente sempre aberta a novos desafios...


10 maio 2018

isto já não vai lá com avé-marias

Esta notícia é fantástica: as irmãs da congregação Holy Names of Jesus and Mary, de Marylhurst, Oregon, juntamente com outros grupos religiosos, compraram acções de uma empresa produtora de armas e usaram esse poder para influenciar as políticas da empresa.

O Spiegel online conta hoje que as freiras conseguiram forçar a empresa Sturm, Ruger & Co. a ser mais transparente, informando o público sobre os perigos das armas que vende e sobre os planos que tem para criar armas mais seguras (accionadas por reconhecimento de impressões digitais, por exemplo), e a assumir as suas responsabilidades no caso de actos de violência com armas produzidas por essa empresa. 

Para mais informações: NYT, em inglês.
 

09 maio 2018

tanta maldade



"Fernanda Câncio, a repórter orgulhosa do seu feminismo e a lutadora pelos direitos das mulheres, deixou-se deslumbrar pelo exemplo mais básico e caricatural do macho-alfa."

Leio esta frase de João Miguel Tavares no Público, e pasmo: como é possível tanta maldade? Que espécie de carácter tirará prazer de humilhar uma pessoa expondo-lhe as contradições entre a razão e o sentimento, como se não fossem elas a matéria mais básica do ser-se humano?

Lucas Cranach, o Jovem, é admirável a retratar a maldade dos humanos escondida sob a máscara da virtude, como se pode ver na imagem acima. Mas há - infelizmente - exemplos bem mais recentes. Repare-se, por exemplo, na cara de satisfação dos homens que exibem esta francesa acusada de ter tido uma relação amorosa com um oficial alemão. Encontrei-a no site "Les femmes tondues de 1944", que tem inúmeras fotografias de gente a rir-se avidamente de mulheres humilhadas e perseguidas por se terem apaixonado pelo inimigo.


Tanta maldade.


08 maio 2018

em ondas sucessivas de gracias a la vida



Por estes dias, o primeiro lugar do índice de felicidade deve ter-se deslocado do Butão para a minha rua.

Aluguei o apartamento  minúsculo da Christina a um casal francês que está a trabalhar em Berlim durante uns meses, mas não consegue arranjar casa. Depois de um mês em dormitórios dos albergues de juventude, chegar a um quarto com casa de banho e um terraço a que podem chamar deles é uma antecâmara do paraíso. Ou o paraíso propriamente dito.
Passo por eles, e ou estão a jantar no terraço, ou a sair para ir dar um mergulho ao lago, ou simplesmente a gozar a vida. Tão felizes, que me fazem sentir contente por eles.

Fui dar uma volta aqui perto, e ao fotografar uma casa que bem podia ser a da Pipi das Meias Altas descobri que tinha uma raposa no jardim. Ficámos a olhar uma para a outra, até que ela começou a ir de jardim em jardim, e eu ao lado dela - mas sempre do meu lado das vedações. Até que cheguei a uma casa com o portão aberto e tratei de me pôr a andar disfarçadamente. A raposa também. Não sei qual de nós mais aliviada por não ter havido cenas.


No sábado, pedi ao meu vizinho se me emprestava o seu cortador de relva. Ele disse que mo trazia quando acabasse de o usar. Pouco depois, tocou à campainha para me perguntar onde devia pôr a relva cortada - já tinha feito o trabalho. A seguir, outra vizinha perguntou se me podia dar o vinho que os amigos lhes oferecem sem saber que eles não bebem, e veio trazer-me uma caixa cheia de garrafas. Arrumei o vinho e saí a correr para a Filarmonia. Queria ouvir a Lisa Batiashvili a tocar o concerto para violino de Sibelius com o Paavo Järvi, mas não tinha bilhete. Consegui estacionamento gratuito, e à porta uma senhora vendeu-me um bom bilhete por metade do preço.



A Lisa Batiashvili tocava em substituição da Janine Jansen. O que me lembrou uma resposta do Lang Lang a um miúdo que lhe perguntou como é que se faz para se tornar um pianista famoso: "trabalhas muito, e esperas até ao dia em que um pianista famoso apanhe uma gripe".

 
 
No fim do concerto fui buscar o Joachim ao aeroporto - estava a regressar de mais uma das suas idas e vindas intercontinentais, e vinha bem. A gente esquece-se muitas vezes que nada disto é garantido.

Melhor sábado que este, só ganhando o euromilhões. Mas preferi não jogar - não é preciso querer mesmo tudo-tudo-tudo.

No domingo passei horas e horas na horta. É como descer uma pista de ski: inteiramente concentrada naquilo que estou a fazer, esqueço tudo o mais. Cheguei ao fim do dia imunda, suada e muito satisfeita. Para grandes males, grandes remédios: atravessei o lago a nadar, consegui deixar lá quase toda a terra que se me prendera à pele e às unhas.

E à noite fui ver o filme "Berlim - Sinfonia de uma grande cidade", de Walther Ruttmann (1927), acompanhado ao vivo com a música original para orquestra, recriada a partir da versão para piano que chegou ao nosso tempo. Um filme vertiginoso, onde aparece várias vezes o vórtice que veremos anos mais tarde no cartaz do Vertigo de Hitchkock. O filme retrata um dia em Berlim, com rápida sequência de imagens e inúmeras cenas de comboios (rodas, carris, agulhas, e uma menção particular para as cenas de comboios que se cruzam uns sobre os outros) e de máquinas em funcionamento. Mostra uma Berlim muito diferente daquela em que vivo: antes dos nazis, antes da destruição, mas também muito mais agitada do que é hoje.

Aviso a quem está em Berlim, ou tem amigos por cá: o filme passa outra vez hoje no Babylon, com bastante ambiente dos anos 20 - muitas pessoas vão vestidas à época, a organista russa do Babylon vai tocando no famoso órgão de cinema enquanto as pessoas se vão acomodando, e há um show em palco com dançarinas de Charleston, canções berlinenses dos anos vinte, projecção de um noticiário da época com comentários divertidos do animador. Só depois começa o filme, acompanhado ao vivo pela orquestra.

Fotos do site do próprio cinema:


 

E para que ninguém se queixe de insularidade, aqui deixo o filme completo, com a música de Edmund Meisel reconstruída a partir da versão para piano. 



06 maio 2018

atraso de vida

Estava aqui tão sossegadinha a fazer planos para passar um domingo na horta (plantar os pés de tomate, mais os de pepino e os de pimento, deitar na terra sementes de abóbora e assim) e toca o telefone. A professora de zumba, a lembrar-me que hoje há aula (espertinha, ela! prevenida. já sabe do que é que a casa gasta).

E lá vou eu.

Maldito fitness. Pode ser que me dê muita qualidade de vida daqui a cinquenta anos, mas já me estragou a manhã de domingo.

04 maio 2018

depois de Hollywood, o Nobel da Literatura...



Oh pá, que chatice! Tinha apostado que - depois do teatro, do jornalismo, do conto, do cantautor - o Nobel da Literatura este ano ia para o Lobo Antunes (crónica) ou para mim (dar água sem caneco no facebook - podem crer que é toda uma arte!).

Mas este ano não vai haver Nobel da Literatura. Vamos ter de esperar mais um ano para decidir esta aposta, é?

[ Maldito #metoo, que só cria problemas ao normal funcionamento da sociedade! Estas mulheres! Não podiam ficar caladinhas? Afinal de contas, um apalpão no rabo (mesmo que seja no da futura rainha da Suécia) nunca tirou nenhum bocado a ninguém. Cambada de snowflakes!... ]

[Atenção: por favor liguem o ironiómetro.]

A boa notícia é: no próximo ano vai haver dois Nobel da Literatura. Já vou pôr os livros do Lobo Antunes de lado, e depois, num intervalo das cerimónias, peço-lhe autógrafos.

03 maio 2018

sous les pavés...




Sous les pavés...
Num dos passeios com o Fox reparei por acaso que as pocinhas de água junto aos passeios nos davam a ilusão de haver outros mundos por baixo da rua. Por brincadeira, comecei uma série "sous les pavés". Publico-a hoje aqui - como homenagem ao Maio de 68, que por estes dias comemora o cinquentenário.
 


 


mundos paralelos

Numa das aulas a que fui no City College, em San Francisco, a professora deu-nos a ler uma notícia de um jornal da Bay Area sobre uma autarquia que premiava actos de humanidade. Enquanto líamos, o meu colega de carteira e eu desatámos a cochichar e a rir em surdina. É que os exemplos dados pelo jornal eram de uma banalidade atroz: o empregado do supermercado que levava as compras ao carro da velhinha, o farmacêutico que verificava se o que o cliente estava a comprar fazia realmente sentido. 

Depois a professora pediu que conversássemos com o colega do lado para contar casos semelhantes a que tivéssemos assistido. Eu contei ao meu colega a história daquele dia em que a Christina teve uma gastroenterite desgraçada, e depois de lhe mudar a cama cinco vezes eu própria fiquei tão apanhada que não conseguia tratar do Matthias, que tinha seis meses. Telefonei a uma amiga pedindo que viesse buscar o Matthias, e ela, a proa de uma família monoparental com quatro filhos, largou as compras e as limpezas desse sábado para vir buscar o bebé, e decidiu levar os dois - apesar de saber que corria o risco de apanhar a gastroenterite da Christina (como apanhou). Por seu lado, o meu colega, que vinha de um país africano, contou da sua aldeia, de quando morreu a mãe de uma família numerosa e uma vizinha começou a cozinhar também para os órfãos.

Quando os outros começaram a contar as suas histórias, nós trocávamos olhares trocistas. Havia quem não tivesse nada para contar, e havia pessoas que só tinham histórias do género "no autocarro, uma pessoa ofereceu o seu lugar a um velhinho"

Lembrei-me desta história ao ver hoje um vídeo do Upworthy sobre o projecto "I'll be there": um movimento para inspirar pessoas para sairem da sua concha e irem ao encontro de outros seres humanos por meio de gestos simples de gentileza. Por exemplo: pagar o café da pessoa que está atrás na fila da caixa, oferecer uma flor, abrir a porta para quem vem a seguir. Gestos simples e intencionais de conexão com os outros.

Ora bem: devo viver num mundo paralelo. No meu tempo, a "gestos simpes e intencionais de conexão com os outros" chamava-se "regras básicas e elementares de boa educação". Não se ia ao ponto de oferecer flores a pessoas sentadas numa esplanada, ou café a pessoas na fila da caixa, mas era normal manter a porta aberta para quem vem atrás de nós, apanhar algo que outra pessoa deixou cair, ajudar a carregar coisas pesadas. Em suma: estar atento a quem se cruza no nosso caminho e ajudar no que for preciso são atitudes tão elementares de boa educação que nem deviam ser dignas de registo.

Que seja preciso "inspirar pessoas para saírem da sua concha e estarem atentas aos outros" e criar prémios autárquicos para cidadãos que se destacam pelas suas atitudes de gentileza são sinais assustadores de um mundo de pessoas a viver em solidão.

O movimento "I'll be There" interessa-se também pelas pessoas que vivem a mais terrível das solidões nas nossas cidades: a daqueles que, por não querermos ver, arrumamos num mundo paralelo muito distante do nosso. Os sem-abrigo, as prostitutas, os pobres explorados pela máfia dos pedintes - por exemplo.

Na semana passada o meu coro apresentou uma composição de Justin Lépany sobre esta solidão. Uma obra cheia de raiva e desprezo por nós, que partilhamos a rua com pessoas em profunda solidão e não as vemos. O maestro insistiu que fizéssemos os FFFFF (fungadelas) e os SCH e TSSS (semelhantes aos nossos "PSSSST!" e "PFFFFF!") à maneira sacudida e agressiva dos berlinenses, revirando os olhos e fazendo ar de despeito.

(Das duas, uma: ou mudo de vida, ou mudo de coro...)

 

Tradução do texto:

Estou aqui mesmo à tua frente
não me vês?
Pssst! FFFF!
Não me vês?
Pssst! FFFF!
Faça o que fizer,
tu não me vês.
Pssst! Pffff!
És doente? És cego?
Estou aqui, mesmo à tua frente.
Doente! Pffff! Cego! Pffff!
Aqui mesmo, à tua frente. Pffff!
Faça o que fizer, não me vês.
Ouve! Ouve! Pssst!
Ouve! Ouve! Pssst!
Por todos os lados gritas por mais
TOLERÂNCIA!
bla bla bla Pssst! Pffff!
EMPENHO!
bla bla bla Pssst! Pffff!
INDIGNAÇÃO!
bla bla bla Pssst! Pffff!
CORAGEM!
bla bla bla Pssst! Pffff!
Mas para ti não existo!
Demasiado feio! Pssst!
Demasiado sujo! Pssst!
Demasiado miserável! Pssst!
Demasiadoembaraçoso! Pssst!
Demasiado diferente! Pssst!
Demasiado real! Pssst!
Falas, e não me vês!
Desperta! Desperta! Desperta! Desperta!
Em breve morrerás, triste e infeliz como um idiota.
Idiota, idiota, FFFF, idiota, FFFF, idiota, FFFF, idiota.
FFFFFFFF.

01 maio 2018

primeiro de Maio: de Kreuzberg para Grunewald (5)



O que eu vi correu (quase) muito bem. Na parte em que caminhei com eles também correu bem. A polícia contava com 200 manifestantes, e apareceram alguns milhares (terão sido entre três mil e cinco mil). Não havia black block e não incendiaram carros. Mas li notícias de que partiram vidos e danificaram 39 carros com tinta. Algumas câmaras das campainhas foram cobertas com tinta ou autocolantes.

Na própria página de facebook do evento alguém publicou esta foto, criticando a polícia por não intervir:


Do mesmo jornal de onde tirei a foto acima tirei também esta, do início da demonstração:

O cartaz dentro de uma moldura cor-de-rosa diz:
Fazer fogueiras de acampamento com as cercas!
Moradores de Grunewald: Tear down these walls!

Assisti à marcha em dois lugares diferentes, e foi isto que vi:

 Camião (onde se lê, sobre a cabine do condutor: "Expropriação - porque não?") parado, a recolher a plataforma rebatível, para não correr o risco de estragar o BMW descapotável.




 
 
 Ah, berlinenses! A bandeira que se vê - mal - no meio da foto tem um punho erguido, 
                                                      com o dedo do meio estendido...




É estranho ver polícias com esta farda a fechar o cortejo, junto aos carrinhos de crianças.


 O trânsito impedido de avançar, pacientemente à espera.





Câmaras danificadas, e autocolantes nas campainhas.
 Esta miúda estava ostensivamente sentada à janela a olhar para o telemóvel, fazendo de conta que não havia ninguém na rua. Numa rua anterior, um casal já de certa idade estava à varanda a acenar simpaticamente a quem passava. Convém acrescentar que o apartamento do casal era bem mais modesto que esta casa. 
 
A polícia protegeu a entrada de um hotel instalado num palacete. Lá dentro, os empregados deram um ou dois adeuzinhos aos manifestantes. Entre os polícias, um miúdo com protectores nos ouvidos olhava com interesse para o jardim. E por cima dele o pessoal agitava as suas câmaras de filmar de cartão, como faziam sempre que viam uma câmara numa casa. 



Vi um manifestante que mostrava um cartaz onde se lia "estou à procura de um quarto". Quase lhe ofereci o pequeno apartamento que vagou hoje na nossa casa. Durante um mês podia viver lá. Ia ter graça o homem mudar-se para o "bairro problemático" contra o qual estava a protestar...

Noutras partes de Berlim as coisas correram um bocado pior. Houve uma manifestação da AfD e respectiva contramanifestação. A polícia prendeu alguns contramanifestantes. Houve alguma agitação de um Black Block com cerca de 300 pessoas, que a polícia dominou rapidamente. E houve também um grupo BDS contra Israel (boicote, desinvestimento, sanções) que se juntou à manifestação no centro da cidade. Na Alemanha, BDS a Israel é uma questão extremamente sensível, porque lembra imediatamente a frase com que o Holocausto começou a dar passos seguros: "não compres aos judeus".

A polícia berlinense, que hoje tinha 5400 agentes na rua, parece bastante satisfeita com o dia. Comparado com outros primeiros de Maio, foi um dia bastante calmo.


primeiro de Maio: de Kreuzberg para Grunewald (4)

Anteontem, no evento do facebook, um morador de Grunewald publicou um curioso comentário, algo entre a provocação e a tentativa de apaziguamento (com esta estratégia há-de ir longe...):

Quando pessoas de todo o mundo e até mesmo de Berlim Kreuzberg se deslocam ao teu bairro para expressarem com alarde a sua inveja, já tens motivos para te sentir orgulhoso. Poder-se-ia dizer que conseguiste alcançar aquilo com que outros sonham. Mas não perdes a cabeça, porque sabes que o o clichê dos ricos moradores de Grunewald vem de antes de 1945 e há muito tempo já não se verifica.
Quem vive aqui? Diplomatas, que residem neste bairro por obrigação profissional; exilados russos, que querem ser deixados em paz; idosos e deficientes nos seus lares; fora isso, muita pequena burguesia.
A meia dúzia de pessoas realmente ricas não saberão apreciar convenientemente o vosso esforço, uma vez que terão aproveitado o feriado de ponte para ir para a ilha de Sylt ou para a Côte. No máximo, ficarão a saber pelos media o que aconteceu aqui. Se houver prejuízos, estes serão reflectidos na contabilidade de uma seguradora qualquer, que, por seu lado, está habituada a catástrofes piores.
O morador de Grunewald pensa: "muito barulho para nada, mas pelo menos sempre acontece alguma coisa por cá". Do seu lugar cativo na tasca da estação, a Floh (=pulga), observa estoicamente a movimentação, e vai bebericando a sua cerveja, como habitualmente.
(O vinho, a propósito, não presta)


A resposta não se fez esperar:
Será um pedido de ajuda?
Michael Hubert descreve de forma impressionante o modo como a indiferença e o isolamento se instalam em Grunewald. Quem pode, foge para Sylt ou para a Côte. Aos outros, nada mais resta senão a fuga para o álcool - e assim acabam na "Pulga", a beber vinho que não presta - ou cerveja. Cenas de um bairro que desistiu de si próprio.
Não, não é a inveja que nos move, mas o desejo de ajudar. Juntos podemos quebrar a indiferença, derrubar as cercas que nos dividem, e construir um novo futuro solidário!


Michael Hubert respondeu:
Bem, se tem de ser... Então venham lá todos. Mas previno já que os bares de Kreuzberg são melhores. Não tenham ilusões.

primeiro de Maio: de Kreuzberg para Grunewald (3)



Estes gajos tornam-se-me cada vez mais simpáticos. Agora um grupo escreveu no facebook que estava atrasado (atrasados! oh pá, adoro-os!) e perguntou qual era o percurso. Os da Internacional Hedonista passaram-lhes este link: Percurso. Espreitem, vejam aquele papel de parede. Agarrem-me, que ainda vou parar à Internacional Hedonista. Sobretudo depois de ver o layout da sua página de informações gerais.

Em todo o caso: não passam pela minha rua. Ainda bem que não fiz o tal bolo, ia acabar a comê-lo sozinha.


primeiro de Maio: de Kreuzberg para Grunewald (2)

Traduzo (rapidissimamente) o comunicado da organização da manif de primeiro de Maio no meu bairro
(e dedico esta tradução a quem diz que os alemães não têm sentido de humor - tomem e embrulhem)



 
Todos para a rua no dia do trabalho social - vamos à área problemática do bairro das vilas!


»Compromisso da sociedade civil para um bairro solidário«

O programa Cidade Social funciona a nível dos bairros, nas chamadas "áreas problemáticas". Grunewald é politicamente um distrito esquecido, muitos dos seus habitantes vivem isolados
por trás das suas cercas, numa sociedade paralela fora do alcance dos serviços sociais. Enquanto em Kreuzberg e Neukölln há um excesso de cultura de protesto político, Grunewald está em grande parte muito aquém do processo de formação de opinião política.


»Capacitar em vez de cuidar«

A nossa ampla estratégia de intervenção oferece aos habitantes da área problemática e socioculturalmente desfavorecida a possibilidade de fortalecer o seu sentido de responsabilidade, promover a interacção social e tomar conhecimento de outras perspectivas
para além das do seu meio.


»Falar uns com os outros, em vez de uns sobre os outros«
Centenas de trabalhadores e trabalhadoras de rua autónomos, ligados a determinados bairros, vão ser disponibilizados para, recorrendo a diversas formas de acção, criarem possibilidades de contacto com vista a um estilo de vida mais solidário.

»Wo eine Villa ist, ist auch ein Weg«
[Este é um trocadilho muito bom: pegam no ditado "Wo eine Wille, ist auch ein Weg", que é o nosso "querer é poder" e em alemão se diz, em tradução literal, "onde há uma vontade também há um caminho", e trocam a "vontade" por "mansão" (Wille/Villa)]

Tornem-se parte desta iniciativa e participem como ajudantes voluntários para o grande evento de inauguração do Programa de Gestão de Grunewald.Grunewald tem de tornar-se mais social! Juntos vamos conseguir! Onde há uma vila também há um caminho!


Apoiantes do Programa de Gestão de Grunewald

- Secção do Programa de Gestão de Grunewald da Internacional Hedonista
- The Incredible Herrengedeck
- O Pesadelo do Burro
- Die Tsootsies
- Pastor Leumund
- Paul Geigerzähler
- Punkrock MC
- Bergpartei, die überpartei (Partido das montanhas, o partido superior)
- Rebellion der Träumer (rebelião dos sonhadores)


primeiro de Maio: de Kreuzberg para Grunewald (1)


 (fonte)

Perto do meu lago há uma casa que sempre conheci abandonada. Contaram-me que foi comprada por um homem para oferecer ao filho, mas este, quando viu que o jardim não ia até ao lago, disse que não estava interessado. Berlim está com um problema gravíssimo de habitação, mas aquela casa permanece vazia porque o filho do pai é um menino caprichoso e pelos vistos não precisa de fazer contas ao que custa manter a casa abandonada.

Há tempos, numa das festas que organizámos na nossa rua, comentei com um vizinho que acho essa situação imoral porque, devido às suas implicações sociais e ambientais, a habitação é muito mais que uma mera questão de propriedade privada. Acrescentei que era preciso haver um programa estatal de ocupação compulsiva (mas reversível) de habitações devolutas, e que é inaceitável que as casas vazias sejam usadas como produto de especulação financeira, ou que fechem as janelas com tijolos, como vejo por exemplo no Porto. O meu vizinho sorriu um sorriso muito autoconfiante e respondeu: "a propriedade privada é intocável."

Não concordando com muito do que a esquerda mais militante defende e faz, penso que a sua existência é importante para criar uma dicotomia fundamental para o debate público. Dou-me conta de que esta esquerda está a fazer alguma coisa muito mal: apesar de a sua dimensão não ser muito menor que a da AfD, não consegue captar a atenção dos partidos do centro. Temos visto a CSU bávara, e também a CDU e até o SPD em guinadas vertiginosas à direita e ao populismo para tentar aplacar o eleitorado da AfD, mas não vemos a mesma atenção em relação aos valores e às reivindicações da esquerda, nomeadamente no que diz respeito aos abusos e maus usos da propriedade privada. 

Esta situação é lamentável pelo que implica de unilateralidade no debate público, e também porque  fico sem saber o que responder ao meu vizinho, quando gostaria imenso de lhe poder dizer, com aquela confiança que se funda na força dos factos, que há pessoas que pensam de outra maneira, e que os detentores da propriedade têm de estar alerta porque, se não assumem a sua responsabilidade social, pode ser que as coisas dêem uma volta.

É este o meu bairro, Grunewald. Cheio de vilas (as ricas mansões que a alta burguesia dos fins do séc. XIX construiu entre a cidade e a floresta), e de casas novas que a média e alta burguesia tem vindo a construir nos terrenos subtraídos aos majestosos parques das primeiras casas. Nas últimas eleições, a CDU e os liberais levaram quase 60% dos votos, os Linke andaram pelos 5%.   

Diz-se que é uma pasmaceira, que nunca acontece nada. Mas este primeiro de Maio algo vai mudar: alguns dos grupos de extrema-esquerda que costumam manifestar-se em Kreuzberg no primeiro de Maio resolveram que este ano têm o dever de vir animar as nossas ruas...

O primeiro de Maio em Kreuzberg tornou-se tristemente famoso em finais dos anos oitenta, devido a cenas de enorme violência, carros incendiados, lojas saqueadas. Em 1987 a polícia esteve durante várias horas arredada do local dos tumultos (e só conseguiram regressar quando os manifestantes foram vencidos pelo cansaço e pela embriaguez, depois de consumirem o álcool saqueado dos supermercados). Ao longo destes anos a polícia e a cidade aprenderam como evitar os confrontos mais violentos. Mesmo assim, no fim-de-semana passado vi nesse bairro como muitas empresas se estavam a preparar para os "festejos": com taipais de madeira a proteger todos os vidros.

E agora lembraram-se de vir para Grunewald, ai!, minha rica casinha!
O meu primeiro impulso é ir meter-me debaixo da cama. Logo eu, que até concordo com muitos dos seus valores, mas não me dá jeito nenhum que me deitem fogo ao carro e me partam as janelas.
Releio a frase anterior: "que me façam isto, que me façam aquilo" - ainda nem começou a concentração, e já me confundo com aquilo que possuo. Mais depressa se apanha um burguês que um coxo...

O Matthias goza com os meus medos. Sugeriu uma pequena passeata em família, com os manifestantes. E disse-me para ter bolo e refrescos para lhes dar, caso passem pela nossa rua. A Christina diz que vai haver música e muita animação, e insiste que a convocatória é sobretudo ironia e bom humor. Pergunto-lhe: tens a certeza que o Black Block não vem no meio dos outros? Ela fica indecisa. Ninguém pode ter a certeza.

O que mais me embaraça nesta história é este pôr a nu do meu comodismo. Enquanto os tumultos eram só em Kreuzberg...

Tinha aqui matéria para um belo filme.

28 abril 2018

concertos


À atenção dos cuscos do costume, do senhor Zuckerberg e da Cambridge Analytica, e particularmente de quem está em Berlim e não sabe o que fazer com o seu fim-de-semana: o meu coro tem concertos hoje e amanhã.

O programa é muito variado, e vai desde o Renascimento até à estreia mundial de uma peça de Justin Lépany que dá voz a um sem-abrigo.

Meio milénio de cultura musical!
(É assim que nos pomos velhos.)

Uma das peças que vamos cantar:


É na Emmauskirche,
Lausitzer Pl. 8A, 10997 Berlin
Sábado, 28.4., às oito da noite.
Domingo, 29.4., às seis da tarde. 
 
 

26 abril 2018

a gargalhada do dia: "A palavra Descobrimentos não está proscrita nem tem peçonha"

Em resposta à carta dos académicos que se pronunciam contra o uso da palavra "Descobrimentos" no nome de um museu sobre a época da expansão marítima portuguesa, João Pedro Marques escreveu um texto de opinião no DN, com o título "A palavra Descobrimentos não está proscrita nem tem peçonha".

Respondo seguindo a ordem dos argumentos dessa crónica:

1. "As palavras não são propriedade de ninguém nem prisioneiras de nenhum período histórico. O facto de Descobrimentos ter sido usada e abusada no período salazarista não desclassifica a palavra nem a contamina para todo o sempre".
Lida aqui na Alemanha, esta afirmação é simplesmente ridícula. Explico recorrendo ao exemplo mais fácil - a contaminação nazi. Todos conhecemos palavras e expressões que já existiam antes do séc. XX, mas que hoje em dia não conseguimos usar sem pensar imediatamente nesse período negro da História: "Führer" (que antes de Hitler significava apenas "guia"), "solução final", "degenerado", "Arbeit macht frei", "Jedem das seine", "povos" (no sentido de "raças") e "repovoamento" (no sentido de "substituição de uma raça por outra"), "tratamento especial", "casamentos mistos", "selecção".
Na língua portuguesa também há palavras e expressões que já não podemos dissociar da carga que o Estado Novo lhes deu. Por exemplo: "ultramar" é muito mais que "do outro lado do mar", "portugalidade" é muito mais que "qualidade própria do que é português", "dia da raça" é muito mais que "comemoração de um conjunto de caracteres físicos hereditários". 

Sabemos que é da própria natureza das palavras ganharem, ao longo da História, cargas e sentidos dos quais passam a ser indissociáveis. Também sabemos que as palavras servem muitas vezes como molde para a produção de uma determinada imagem ou interpretação da realidade e para o reforço de ideologias. Essa produção de imagens e interpretações faz-se por recurso ao eufemismo com o objectivo de impedir a tomada de consciência da realidade (é o caso de "descobrimentos", mas também posso referir exemplos do léxico nazi, tais como "transporte" em vez de "deportação e extermínio" e "eutanásia" em vez de "assassinato de pessoas com doenças mentais"), e faz-se também usando determinadas palavras que condicionam o pensamento em grelhas ideológicas ou de preconceitos. Um exemplo actual deste segundo caso: a extrema-direita alemã está a reintroduzir no espaço público algumas das palavras do léxico nazi, como teste aos limites impostos pela sociedade e como ferramenta para actuar sobre a interpretação dos factos. O modo como falam dos refugiados ("ameaça", "invasão", "risco de perda de identidade", "repovoamento") é um caso muito óbvio de apropriação e reprodução do discurso nazi, levando as pessoas a ler o que acontece hoje em dia neste país segundo essa grelha ideológica. Trocando por miúdos: os refugiados serão "povos inferiores" que ameaçam os "arianos".

"Descobrimentos" é um caso óbvio de escolha de uma palavra para ocultar parte importante dos factos e oferecer uma "realidade" idealizada. Este caso é tanto mais interessante quanto a palavra foi imposta há quase 500 anos pelo rei espanhol Filipe II: "Los descubrimientos no se den con título y nombre de conquistas pues hauiendose de hazer con tanta paz y caridad como deseamos no queremos que el nombre dé ocasión ni color para que se pueda hazer fuerça ni agrauio a los Indios." Na altura em que estas Ordenanças foram escritas, a descoberta da América já ia a caminho dos cem anos, os conquistadores já tinham um largo historial de chacinas, violações e raptos - mas o rei insiste que se trata de uma missão de paz, conduzida sem agravo para os índios, e impõe o uso do nome "descobertas". Mais: acredita que ao impor o uso de um determinado nome vai conseguir alterar os comportamentos e agir sobre a realidade.   

2. "A França tem vários museus napoleónicos. Os seus nomes evocam um homem odiado por muitos dos povos que os seus exércitos trucidaram. Deveriam tais nomes mudar para atender à visão negativa que os portugueses, por exemplo, conservam das invasões francesas? Não oiço defender tal coisa nem me consta que haja gente chocada com os museus de Napoleão."
Ninguém pede para mudar o nome, porque os museus já têm o nome certo. Se se chamassem "Museu do glorioso esforço francês de levar os seus melhores valores e progresso a toda a Europa", ou algo assim, haveria com certeza resistência por parte dos outros países. Resistência, ou chacota. Ou ambas.

3. "Todos valorizamos, e bem, a visão do outro, mas a ideia de que se pode ver e contar tudo de todos os ângulos em simultâneo, e que isso constitui por si só um enriquecimento, é algo ingénua porque, por norma, na narrativa histórica - e, presumo, museológica - aquilo que se obtém por um lado perde-se por outro. O que se ganha em diversidade perde-se em profundidade e uma acumulação de diversidades pode levar a um bloqueio ou a uma salada-russa."
A diversidade das perspectivas é condição sine qua non da profundidade da abordagem. Caso contrário, faz-se um museu apenas para um certo tipo de clientes. Também se pode fazer, claro, mas nesse caso é melhor que o museu não conste dos guias turísticos, nem tenha textos traduzidos para outras línguas, nem nada. A exemplo de um museu militar que um amigo meu viu no Japão: tudo muito bonitinho e bem explicado em japonês e em inglês, por ordem cronológica. Mas quando se chega à segunda guerra mundial, tem lá uma salinha escondida, com textos apenas em japonês. É sobre os kamikaze...
Será possível fazer um museu dos descobrimentos que fale apenas dos navegadores, das rotas, dos ventos alísios, das embarcações e dos fabulosos progressos técnicos? É possível, sim. Mas no século XXI, nesta fase avançada do pós-colonialismo em que nos encontramos, vamo-nos cobrir de ridículo perante o mundo se fizermos um museu com esta abordagem tão afunilada e autocomplacente. 

4. A crónica termina assim: "Sei que esse nome suscita reservas e anticorpos na academia, mas ele faz sentido tanto dentro como fora do país, pois é em boa medida pelas grandes viagens marítimas e seu resultado que Portugal é conhecido no mundo."

Beeeem... no mundo por onde tenho viajado, Portugal é conhecido pelo Cristiano Ronaldo (e antes, pelo Figo). Os descobrimentos portugueses serão, quando muito e apenas para alguns, uma nota de pé de página. Quando falo com estrangeiros que conhecem o fenómeno, não é de "descobrimentos" que me falam, mas de "expansão", "conquista" e "colonialismo". Excepto num caso, o de uma alemã que conhece bem a cultura portuguesa, e se riu do orgulho e da fixação que temos nos nossos descobrimentos, como se tivesse sido tudo fantástico e como se desde então não tivéssemos sido capazes de fazer mais nada digno de menção.

E quem conhece realmente a História, que diz de nós? Há cerca de quinze anos, numa exposição sobre essa época da expansão marítima europeia, no Museu de História Alemã em Berlim, fiquei a saber algo que em Portugal nunca ninguém me tinha contado: Fernão de Magalhães fez a sua famosa viagem de circum-navegação sob bandeira espanhola. Por ter caído em desgraça na corte portuguesa, vira-se obrigado a pedir apoio à corte espanhola. Também se mencionava que Colombo começou por apresentar o seu projecto ao rei português, e só depois da recusa deste se dirigiu ao rei espanhol. Confesso que saí dessa exposição em choque: a exposição alemã, que tratava o tema que em Portugal me fora ensinado como a página mais gloriosa da nossa História, dava da corte portuguesa dessa época a ideia de palacianos incompetentes, intriguistas e sem visão.

Desengane-se portanto João Pedro Marques: no resto do mundo, não é pelos seus "descobrimentos" que os portugueses são conhecidos. É mais pelo futebol, e - entre as pessoas com mais cultura - pelo seu passado expansionista e colonialista, pelo comércio de escravos no Atlântico, pela guerra colonial. Dos estrangeiros que visitem um "Museu das Descobertas" não se pode esperar a mesma tolerância e boa vontade de quem foi socializado nas escolas do Estado Novo. 

saída de emergência


Como contei num post anterior, no sábado passado tive um ensaio do coro numa escola. Vamos ter dois concertos com outro grupo, e foi preciso arranjar uma sala onde coubessem todos. Por sorte, nos edifícios das escolas antigas costuma haver um grande salão, e foi num desses, numa enorme escola deserta ao fim-de-semana, que nos juntámos. 

No fim do ensaio pegámos nas nossas coisas e descemos a escadaria. Ao chegar ao nível térreo não encontrávamos a porta da saída. As saídas de emergência estavam todas fechadas, e nós às voltas por ali, um bocado irritados e também muito aliviados por a casa não estar a arder. Finalmente, vimos uma das portas principais a abrir-se. Era uma empregada de limpeza, que também estava a sair. Corremos para a porta. Mal eu passei, a funcionária fechou a porta e rodou a chave mesmo na cara das pessoas que estavam a querer sair.

Pedimos que abrisse, e ela recusou. Que aquela chave era só para ela, que a porta dos outros era outra, que bastava descerem à cave, irem até ao fundo do corredor, entrar numa salinha, depois noutra, e era por lá que podiam sair. Dizia-nos isto de chave na mão, mesmo junto à porta, com o pessoal desconsolado a olhar para ela pelo vidro, sem entender o que se passava.

Um dos que tinha conseguido sair tentou intimidá-la, gritando-lhe ordens para abrir a porta porque estava assinalada como saída de emergência, e que ia chamar a polícia, e coisas assim. Ela, teimosa, repetia que não abria, que aquela porta era só para ela e que os outros fossem à volta, ele que chamasse a polícia, e que ela tinha ordens superiores. Regras são regras. Ele gritava, ela gritava, uma adolescente começou a gritar também "vocês são adultos, portem-se como tal!"

Depois calaram-se todos, os que ainda estavam dentro da escola encontraram a tal saída pela cave, encontrámo-nos junto ao portão, dissemos "adeus, adeuzinho" em tom jovial, e cada um foi ao seu sábado. A alguns metros de nós, dois funcionários da escola e a adolescente observavam-nos e comentavam com rancor: "agora estão todos simpáticos, a dizer adeus e adeuzinho como se fossem boa gente."

Tudo aquilo foi desconcertante. A cupidez do exercício do pequeno poder, a brutalidade de fechar uma porta à frente das pessoas que queriam sair e não conheciam o edifício, a rapidez com que resvalámos para uma situação de violência, o desprezo de uns e o despeito dos outros. Mas o que me intrigou mais foi aquele apelo da adolescente: "portem-se como adultos!"

O que é que esta miúda entende por comportamento de adulto? Um adulto é um manso que se submete a prepotências e obedece cegamente às regras? Um adulto é aquele que aceita passivamente situações inaceitáveis, criadas por regras que se esqueceram de prever todas as possibilidades?


25 abril 2018

Portugal no seu pior

Ontem, num corredor do aeroporto de Estugarda, a Christina pediu-me em português para chegar para o lado e ir mais devagar. Antes de me explicar porquê, o homem que ia ao lado dela comentou que é sempre um prazer ouvir falar a língua dele. Era português. Trocámos meia dúzia de frases, e depois foi cada um para a sua fila. A Christina disse-me, aliviada, que foi uma sorte não ter acabado a frase que me tinha querido dizer: "chega mais para o lado, porque não quero que este homem vá tão perto de mim, acho-o um bocado esquisito". Acontece-nos demasiadas vezes pensarmos que mais ninguém entende português, e falamos como se estivéssemos entre as nossas quatro paredes sem ouvidos.

Reencontrámo-lo na sala de espera do avião para Berlim. Vinha com um grupo de homens. Quando passei por ele, no avião, disse-me todo jovial "que pena não sentarem os portugueses todos juntos!"

Fomos sentadas duas filas atrás deles. Ouvia-os dizer "boa! ó boa!" sempre que passava uma hospedeira, e fiquei indecisa sobre a atitude a tomar. O avião levantou voo, e eu adormeci. À chegada, a Christina contou-me que tinham sido insuportáveis: tocavam a campainha exigindo a vinda da hospedeira vezes sem conta, ora porque queriam uma bebida, ora porque o copo já estava vazio e queriam que ela retirasse logo o lixo, ora porque queriam uma informação; falavam demasiado alto, como se não houvesse mais ninguém à volta, e só diziam ou palermices ou ordinarices.

Evitámo-los à saída do avião, mas quando nos dirigíamos para os transportes públicos ouvi um deles dizer "olha aquela gaja: vinha connosco no avião!"
"Aquela gaja" era eu. Antes que os outros respondessem no registo que já lhes conhecia de gingeira, parei e virei-me para eles, furiosa:

- Pensam que mais ninguém entende o que dizem? Eu ouvi, e fiquem sabendo que são extremamente desagradáveis!

O homem que estava mais perto de mim balbuciou:

- Não olhe para mim! Não era eu!

- Quero lá saber quem era! Eram vocês, este grupo de portugueses! Tenham vergonha!

Ficaram todos calados. Uns valentes...

--

Lições que tiro para o futuro:

- Partir sempre do princípio que há alguém que entende a língua na qual estou a falar;
- Da próxima vez que vir cobardes como estes a gozar com as pessoas a coberto do desconhecimento da língua, aviso a pessoa que está a ser gozada. Ontem, devia ter chamado uma hospedeira, e informá-la sobre o que eles estavam a dizer dela e das colegas dela. Estou furiosa comigo por não o ter feito. Sinto que falhei à solidariedade e à decência. 

25 de Abril de 1974




Quando uma mãe entrou na sala de aulas onde eu estava e disse que vinha buscar a filha (só havia raparigas naquela escola) porque Lisboa estava cercada, eu, que tinha dez anos e desde o infantário trazia a cabeça cheia de histórias de cristãos bons, mouros maus, cercos a castelos e batalhas heróicas, imaginei os tanques virados para o castelo de São Jorge...

Do 25 de Abril lembro sobretudo o 1º de Maio, quando todos saíram à rua numa alegria comovida, sem limites nem divisões.

(Algumas das canções que ainda sei de cor aprendi-as em segredo na casa de uma amiga, uns meses antes do 25 de Abril. Ela disse-me que aquele disco era proibido, ouvimos as canções e ficamos intrigadas: que mal tinham os versos "vou andando por terras de França"?) (Como é possível fixar tão bem aquilo que se ouviu tão pouco?)

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O facebook lembrou-me que há alguns anos publiquei lá este texto.

Releio-o, e comparo a miúda de 10 anos que eu era (apolítica, sem informação e com a cabeça cheia de mitos) com os miúdos de 10 anos que encontro hoje em dia.

 "No meu tempo é era bom"?...


23 abril 2018

programa de domingo

Programa de domingo:

Primeiro fui ao facebook ver um tutorial sobre como saltar no trampolim, depois fui saltar no trampolim do jardim (espero que os vizinhos tenham dormido até muiiiiito tarde), depois fui nadar no lago (fui até ao outro lado e vim, cheia de pena de não ter uma máquina fotográfica para mostrar como as margens são bonitas) (sim, está oficialmente aberta a época de banhos), depois preparei o apartamento para os turistas que estavam para chegar, depois fui trabalhar furiosamente no jardim que bem precisa, e depois saí desaustinada para ver a Anne Teresa De Keersmaeker mais o Rosas & Ictus Ensemble a dançar o Vortex Temporum com música de Gérard Griseys na Volksbhne.



Não percebo muito de dança moderna, mas pareceu-me que aquelas corridas em elipse eram a minha cara chapada: eu a correr atrás do atraso.

Programa de segunda-feira:
Aguentar as dores dos músculos (os do costume: aqueles que nem sabia que tinha antes de me dar para fazer desporto por causa daquilo de ser bom para a saúde)